- Não, eu não sei de nada que se passou hoje quando conversava com você. Não me lembro de nada. Não sei nada do que se passou nem hoje, nem semana passada e nem antes e antes e. - Ela disse sem medir as palavras que se libertaram por lise. E continuou. - Que confusão, eu não sei de nada, dá pra entender? Então não fica me cobrando o que eu não sei, o que eu não quero. Tá difícil de compreender? Eu já to bastante enrolada por mim mesma pra ficar ligando pra essas coisas que vocês todos dizem.
A outra a ficou encarando por uns segundos até reconcertar a fala. Estava com os olhos tensos, uma expressão equivocada e surpresa. Nunca tinha visto Anne falando daquela forma. Teve vontade de correr, mesmo com o enorme salto que usava. E ouviu novamente aquela voz desabafando exausta.
- Querem um conselho? Não quero vocês dando palpite na minha vida, porque eu não dou na de vocês! Eu quero ficar sozinha, não quero ninguém comigo. Se eu to doente como dizem, se eu preciso de médico, se isso ou aquilo, o problema é meu, vocês não tem nada com isso. – Sua voz mudou de tom, agora bradava sem remorso ou algo parecido. Parecia aliviada por dizer o que tinha vontade, por libertar aquele sentimento amordaçado por ela. - Não estou me agüentando mais e ainda tenho que ouvir essas palhaçadas. Tenho meus problemas, tenho sim, e não nego. Não preciso que fiquem apontando tudo o que eu já sei.
Kath tremia, não sabia o que dizer frente às acusações de Anne. Não tinha consciência do como tudo aquilo a machucava, a amedrontava e a deixava ilhada. Olhou tudo em volta. O chão. O teto. O gato que se acariciava em seu pé. Tudo, menos nos olhos da outra. Quis pedir desculpas, pedir perdão por todo mal causado, pelos dias não vividos, pelas noites em claro, pelas palavras de conforto omitidas e pelas outras mal faladas. Mas não tinha voz naquele momento. Tudo havia se tornado tão áspero, tão cruel.
- To, to revoltada sim, to tensa, to enjoada, louca, doente e o que eu quero é ir embora, ir pra onde ninguém me conheça, pra que eu não me importe com o que eles digam. – Essas palavras soaram como cristais sólidos que em contato com os olhos os fizeram úmidos. Kath mal se aguentava em pé. Ouvir aquilo a fizera ciente de como havia sido tola todo esse tempo. Fez perceber como se importava com a outra e não queria seu mal. Em como ela significava. Apenas significava. Muito.- Eu só tinha que escrever, escrever para fazer mais branda a vontade de falar, de me comunicar, de dizer sem medo de me criticarem. Eu bebia sozinha, em casa largada, à penumbra dos dias ensolarados que fiz virarem noites, e pensava no auge da solidão Já-se-foi-um-meio-copo-de-conhaque,-quer-mais?-Sim,-eu-quero,-mas-não-posso.-Acho-que-fiquei-bêbada.
Ela chorava, mal prestava mais atenção na voz que vinha ao lado, em Anne dizendo tudo que ela temia ouvir. To-vendo-umas-coisas-rodarem.-Eu-podia-rodar-também. Se desculpar já não adiantaria nada, desculpa nenhuma seria suficiente para tanto. Estava embaçando tudo pela frente. Um calor. Ouviu uma última voz dizendo:
- Quem eu era, agora morreu, não existe mais, tchau para tudo aquilo e bem vida essa nova pessoa que eu hei de ser! Medo? O que é isso? Desconheço. Meus limites eu imponho, sofro o que eu me permitir sofrer. Acabou a angústia. Nasci de novo.
Tudo se apagou. Kath estava digerindo todas as palavras ouvidas. Depois, depois, depois. Acordou para a vida, para ela, para Anne.
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