14/02/2011

Andou da cozinha para a sala, da sala para o quarto e deitou-se na cama ainda vazia, apenas coberta por uma colcha branca com estampas de flores, as mais belas. Fechou os olhos a fim de dormir, mas o sono não veio. O cansaço estava sempre ali, juntamente com uma vontade de um nada cercado de um quase tudo e dor no abdômen.
Estava no consultório, e aquela frase pronunciada ficou ecoando em sua mente, como um grito no vácuo. “Se eu não conseguir nada com você, já fico feliz só por.” O final ela não se lembrava como havia sido, mais só a primeira parte já era o suficiente para fazê-la pensar. Ficou parada viajando nas palavras, na voz, no tom, no som. Aquilo a havia afetado de uma forma que ela não descobriria. O ambiente escuro de fim de tarde, um silêncio quebrado apenas pelas palavras, uma cadeira preta, uma mesinha de centro, apenas separando ela de Clara, e outra cadeira preta, ambas ocupadas, cada uma por uma. O cheiro agradável, que muitas vezes nem se havia sentido, por distração. Clara não ousava encarar quem estava a sua frente, olhava com pequenos relances que pediam socorro. Notou as unhas vermelhas, vermelho-sangue, um ventilador ventando um frio fake, e os olhares que estavam ali para se cruzarem, para dizerem, e eles tinham para dizer, muito mais do que caberia nas palavras, mas quase não disseram. Sentiu dor de cabeça por causa da abertura das persianas que irradiavam claridade diretamente em seus olhos. Teve vontade de ir embora, mas permaneceu. Em parte.
Pedaços de Caio Fernando rondavam em sua cabeça, agora já em um jardim. Havia flores –rosas, girassóis, crisântemos, orquídeas...-, elas a vigiavam, descreviam cada movimento de Clara, cada sorriso, lágrima, suspiro. Houve excitação ao pensar no trecho que lera num livro e sentiu que deveria compartilhá-lo com quem estava ali prestando atenção nela. Todas as flores pararam o que estavam fazendo para ouvi-la recitar “Nunca deitara nu ao lado dela na cama, nua também. No máximo sussurrava doçuras tipo: "Fica agora assim por favor parada contra essa janela de vidro que a luz do entardecer está batendo nos seus cabelos e eu quero guardar para sempre na memória esta imagem de você assim tão linda".” Sorriu, apesar sorriu, querendo se lembrar de alguma coisa, mas de nada se lembrou.
Tinha casas e prédios e pessoas e barulhos. Lajeado? Estava lá, inacreditável, Clara e Ismael. Tanto pensara, tanto imaginara. Oh Deus, sim, eram os dois, e ela mal acreditava. Contou dos Duendes e os Famosos, do blog, dos escritos, das fotos, e dos. Um pouco de. Falou da menina de Porto Alegre também, que o apresentava para ela, e da tristeza que tomou conta de Clara e também da amiga, pelo fim dos textos, pelo fim de. pelo fim deles, e do ela no dele. Só ele havia entendido o que ela acabara de dizer, porque era tudo ele que ela falava. Muitas coisas depois e.
Tentava imitar Clarice L., sonhava com Renato R., imaginava Mario P., se divertia com Millôr, queria Érico V. Lágrimas escorriam por sua face e ela nem percebia, tão entretida que estava. “Mas que patife!”, lembrava e ria todas as vezes. Um mosquito para incomodar, pousou no seu rosto e em um ato reflexo Clara deu-se um tapa na cara. Acordou. Oh God, sonhos, sempre sonhos. Ela não se lembrava mesmo do que sonhara, acordou assustada e os sonhos ficaram nos sonhos, no inconsciente. Levantou-se ainda sonolenta e lavou o rosto. Ficou se admirando na frente do espelho por algum tempo e um leve sorriso final. Voltou para o quarto e continuou a rotina de sempre, sem mais. Livros e livros, caderno e. Abriu sem querer um livro e de dentro saiu um papel que estava escrito “Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras coisas. C.F.” e apenas concordou com ele. Outros sonhos virão. E outros risos. E outros dias.

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