Olhando agora da janela desse prédio onde moro, a brisa me sussurra a lembrança e tento evitar aquele tempo, sem êxito. Lembro-me de meus exatos 30 anos. Era homem feito, realizado, com família e harmonia, em uma cidade do sul, Lajeado para ser mais exato. Aquela cidade era pra mim como um amor, o mesmo sentimento ufanista dos Romancistas por seus países. Era o orgulho, a minha vida, minha história está ali.
De repente, tudo se perdeu. Como foi tudo se desvencilhar? Simplesmente se desvencilhou. Sem eu me dar conta perdi a felicidade, o sentimento de alegria se transformou em tristeza, a mais profunda tristeza. A família se desvaneceu, naquele momento o nós passou a ser eu, um eu perdido.
Saí daquela cidade, meu nacionalismo se tornou esquecimento. Passei a não querer o mundo, a ser um eu entre o vácuo. O vazio tomou posse de meu corpo e era meu refúgio. Estava desconcertado. Com isso se passaram anos e continuei me refugiando nas lembranças do que foi minha vida. A aparência de 30 se transformou em 60 sem eu me dar conta. Havia se passado três anos.
Decidi voltar àquela cidade, a minha cidade. Tudo, incrivelmente, estava do modo como era. Ela teve a força que eu não tive. Reconstruiu a vida que eu desfiz. Ela e Lajeado. Ficou me esperando enquanto eu fugia. E eu voltei, para ela, para Lajeado, para nós.

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