14/10/2010

Insatisfeito com a vida, cansado de sempre andar na contra-mão, no bar ele foi se entregar aos seus devaneios. Bebeu o que lhe convinha. Com seu semblante deprimido, pediu que alguém lhe fizesse companhia; queria que ao menos naqueles poucos momentos houvesse alguém com quem conversar. Estava acostumado à solidão de quem pensa além do que pode ser feito, ou é desencorajado e obrigado, pela sociedade, a aceitar que não pode fazer nada. Em pouco tempo ficou alterado. Cantou e dançou sua tristeza, brindou seu adeus, agradeceu a todos os presentes do bar, sorriu um sorriso indiferente a cada um, um sorriso que há tempo não brotava em seu rosto, contrastando com sua imagem, e saiu a cantarolar suas dores. Mesmo depois de algumas doses, se sobrepunha algum restante que nele existia de lucidez à embriaguez. Fez uma viajem ao passado e voltou à realidade um tempo depois. Ninguém ousava incomodá-lo e ele não se deixava levar pelo barulho estressante de uma cidade desenvolvida de um país subdesenvolvido. Andava sem rumo, sua última noite seria de total liberdade, como ele sempre sonhou ser durante o tempo que ainda tinha antes de. A sociedade não permitia total independência; ele se considerava um prisioneiro do capitalismo. Se sentia feliz e livre, sentou junto aos mendigos e riram juntos todos no mesmo tom de libertação, como se aquele riso estivesse oculto a décadas, esperando o momento certo para se auto revelar. Jogou comida às pombinhas, correu atrás delas na tentativa de voar para os céus a procura do infinito, e elas, numa reação mais que esperada, alçaram voo como para se defenderem. Gargalharam todos mais uma vez. Se despediu de seus recentes amigos e continuou sua caminhada, onde parou em seguida em frente à janela de uma senhora, a qual estava a observar a noite da cidade. Mesmo sem a conhecer, contou-lhe a sua estória, mas dessa vez omitindo as tristezas e as decepções, de tão embriagado de felicidade, talvez fosse num ato despercebido, ou talvez quisesse realmente omitir essa parte. Ao dizer adeus a gentil senhora que teve a paciência de o escutar, o que muitas pessoas não fazem, teve a certeza de que deixara a impressão de um homem feliz e adaptado a uma vida onde todos temos que nos adaptar, caso contrário seremos esmagados pela máquina do capitalismo que vem a ser os dias de hoje, o que ele nunca foi, tanto que chegou nesse ponto de. Estava tão radiante que sua alegria o fez esquecer, pelo menos naqueles momentos, de todo o seu passado onde. Caminhou por quase toda a cidade, exceto naquelas partes que ele bem sabia, eles estavam lá. Nunca havia reparado aquela cidade, a sua cidade. Avistou de longe uma árvore grandiosa perto da praia, a qual nunca havia notado sua presença, mesmo aquele sendo o trajeto para sua casa onde passava todos os dias. Estava sempre tão atordoado e perdido em si que não tinha tempo para ver as belezas ocultas. A beleza está nos olhos de quem vê. Aquela não era literalmente, uma árvore bela, sim, era grande e bonita, mas igual as demais, sem nada que a fizesse ser mais que todas; mas não para ele, via naquele momento o que não viu durante toda a sua vida. Achou a elegância no simples, percebeu a diferença no igual. Sentiu-se indignado por aquela maravilha não ter nenhum valor para as demais pessoas, uma árvore que produzia sombra, frutos, folhas saudáveis e bonitas, e ali naquele lugar havia muitas daquelas, tanto que as pessoas não se importavam, pois se tem muito, sinal de que está tudo bem, não demonstra a verdadeira realidade de tudo. Não está tudo bem. O mundo não está bem. Mas ninguém via a vida com os olhos daquele homem, e ele sentou-se a descansar suas costas cansadas no tronco daquela árvore, sentindo a brisa fria e úmida do mar, sentindo o gosto da maresia. Estava consciente, e sua revolta com tudo a sua volta também estava presente com ele, aliás, nunca deixou de estar. Decidiu terminar com tudo de uma vez, não queria mais oferecer ao mundo o que ele não queria receber. Se despediu de sua árvore e lamentou por ela não poder ir junto com ele. Lembrou-se do início de sua caminhada, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e desejou voltar para lá sem precisar andar de volta tudo o que andou até ali. Chegando na beirada da lagoa, olhou o mundo a sua volta pela última vez, com a pequena diferença de reparar nos mínimos detalhes tudo o que ali havia. Notou que um garoto o observava e apenas o olhou de volta e deu um sorriso acenando, recebendo outro. Sua vida até aquele momento passou por sua memória como um filme avançando rápido demais, dando apenas para lembrar os fatos mais marcantes. Percebeu que seus olhos estavam marejados e parou, não quis mais se lembrar, não quis olhar para o passado, não quis chorar, não ali, não agora. Olhou para os céus, rezou duas ou três orações que lhe vinham na cabeça no momento e enfim pediu perdão pelos seus erros, perdão por estar ali prestes a terminar com sua vida, mas talvez ele precisasse daqueles momentos antes de chegar até ali para poder ver como é a vida na realidade, ver o que ele nunca viu, sentir o que nunca sentiu, fazer o que nunca fez e dizer o que nunca disse. Realização era o nome que ecoava em sua mente, se sentia realizado e enfim.. livre. Sem mais, tirou o pé de apoio que o segurava na borda da lagoa e o deixou ir sem esforços para voltar. Ele morreu afogado, carregador de feira livre, não sabia nadar.


Baseado no "Poema Tirado de uma Notícia de Jornal - Manuel Bandeira"

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